segunda-feira, 27 de agosto de 2012

UMA CANÇÃO PARA MARIA COM O MAGO DE SANTA ANA





 UMA CANÇÃO PARA MARIA
COM
O MAGO DE SANTA ANA
EXTRAIDO DO ORIGINAL DO ROMANCE – OS MAGOS DE SANTA ANA DE RUY CRESPO FILHO
Coimbra-1888
  Era o dia consagrado a Nossa Senhora de Santa Ana. Ele estava no solar 84 acabando de tomar o seu banho. Não demorou. Foi para o quarto. Colocou apressadamente sua roupa nova para aquele tempo. Era um terno de linho preto, muito bem engomado. Abotoou o colete. Ajeitou seu relógio de bolso. Olhou as horas. Eram vinte horas. Foi à sala na mesa central da rosa dos ventos e desvirou a sua ampulheta. Voltou para o quarto. Pegou a sua gravata borboleta. Ajeitou-a corretamente no colarinho da camisa branca e vestiu o paletó. Dobrou o lenço  e colocou no bolso superior. Olhou-se no espelho. O tempo o tinha o tranformado sem que ele perdesse a sua essência.  Foi para a sala, colocou o seu chapéu preto. Pegou a bengala com a águia prateada. Deu três batidas no chão dizendo:
 -Eis o meu tempo. Nesse tempo EU SOU... É o meu decreto! Abriu a porta do solar 84 e se deparou com uma linda lua cheia. Caminhou pela rua com incontestável elegância. Passos firme e apressados. Seu corpo estava quente. Uma emoção  diferente. Seu coração batia forte e rápido. Podia senti-lo nas pontas dos dedos.As pessoas o olhavam. Alguns comentavam: Este homem não é desse lugar. Alheio a tudo ele caminhava com pressa de chegar. Parou numa livraria e procurou o livro dos Magos de Santa Ana. Será que em Coimbra o livro existia?Sim... Lá estava! Abriu  na página onde estava escrito:
... ´´Quando chegar diante da estrela a beije cinco vezes e depois mais três´´.
 Pág 17. Fechou o livro. Olhou para todos os lados e saiu. Uma jovem pegou o mesmo livro e perguntou a ele:-O  senhor é um  Mago? ELE olhou e pegou em suas mãos e respondeu:
-Só os que me reconhecem acreditam que Eu sou...
 Beijou as mãos da jovem se despedindo.Foi para a Cafeteria  ´´O Pão Nosso de Cada Dia´.
 Pediu  café forte com torradas. Bebeu e comeu.Abriu o livro dos Magos e procurou o dia de Santa Ana no calendário do ano de 1888. A última lua cheia do mês. Pegou no meio das duas páginas uma partitura dos últimos anos de 2009. Ficou estudando a partitura. Começou cantar baixinho. Estava escrito;
-Essa música depois de vivida será o sucesso de um compositor. Pediu a conta. Saiu como se tivesse um encontro marcado e que não poderia perder nem um segundo do precioso tempo. Tinha que chegar à festa da Praça principal de Coimbra.Era a Igreja de Santa Ana.Ele da três batidas com a ponta da bengala. Tudo passa rapidamente diante dos seus olhos. Cada passo que dava para frente, o tempo voltava.Continuava pisando para frente. Não podia parar. Era assim que funcionava ´´o domínio da relatividade de uma viagem no tempo´´.Tinha que chegar exatamente no lugar correto e no tempo certo.Tirou o lenço para enxugar o suor de seu rosto. Olhou novamente as horas. O relógio marcava 6 horas da noite. Ouviu o badalar do sino da Igreja de Santa Ana confirmando o tempo e o lugar. Tudo estava alinhado. O sol, a terra e a lua.
A Praça de Coimbra estava lotada. Os presentes  não poderiam nem supor o milagre que estava para ocorrer.  Ele escolheu uma das mesas que formava com as outras um circulo com uma estrela das rosas do vento no centro. A orquestra ficava do lado norte da rosa dos ventos. No leste uma estrela de cinco pontas desenhada no chão. Os músicos afinavam seus instrumentos num som quase enfadonho. Todos escutavam atentamente com ansiedade a preparação. Abriu o livro dos Magos para olhar a partitura. A música não saia da sua mente. Precisava toca-la, cantar e dançar. As pessoas já estavam lotando as mesas. Comiam e bebiam. Uma mulher chegou até ele e perguntou;
- O que esta achando da festa senhor?ELE apenas sorriu para ela. Ela voltou a falar:
 Nesta festa o senhor beberá do bom vinho. O vinho de canã. Por acaso o cavalheiro está procurando a sua noiva? Ele sorriu novamente. A mulher se retirou.
 A orquestra começou a tocar. O coração dele disparou. O maestro  Joaquim  disse:
-Nesta festa em céu aberto,
 cuja lua brilha, encantando os casais enamorados peço licença para dizer algumas palavras em homenagem a nossa Senhora de Santa Ana - A Madrinha dos Magos das duas Maria.
 Oh! lua
 Linda branca, nua...
Despida de tudo que possa criar limites
 Vá e diga ao meu amor
 Que ando pelos tempos, pelas vidas...
A tua procura...
 Oh!Branca lua
 Rosa branca nua
 Diga a ela que ainda a amo
 E que de longe voltei
 E nesta praça estou a te esperar
Ag
(Aplausos! Aplausos!)
 Viva Santa Ana!Viva Maria!
 A orquestra passou a tocar. Ele ouviu atentamente. Levantou. Olhou procurando um rosto conhecido na multidão. Nada encontrou. Ficou inquieto. Será que tinha errado os seus cálculos no tempo e no espaço?  As coordenadas, latitude, longitude, inclusive o relógio com as rosas dos ventos indicava aquele lugar. Olhou novamente para se certificar:
–19.45 estava chegando à hora. Levantou e foi até o maestro. Apresentou-se como musico. Pediu que tocasse a música daquela partitura. Desceu do palco e deu as três batidas com a ponta da bengala no chão. E disse:
 -'' Nada teu exagera ou exclui.
Para ser grande, sê inteiro.
 Sê todo em cada coisa.
 Põe quanto és no minimo que fazes.
 Assim em cada lago a lua toda brilha!
Que ela apareça nesta praça nesta rua agora. É o meu decreto!
 O carrinho de churros estava chegando. As mães com as crianças faziam filas para comprar churros de uma mulher. Depois de certo tempo a mulher largou tudo e foi participar da festa. Procurou conversar. Mas as pessoas a ignoravam.  Continuou a andar até que encontrou uma mesa. Era a mesa do mago. Ela sentou-se de forma elegante. Cruzou as pernas. Estava sem sapatos e com os pés imundos. Um casal de uma mesa ao lado cochichou:
 -Pelo amor de Cristo como podem deixar uma mendiga participar de uma festa como essa? Mas ela se mantinha alheia a todos os comentários. Aquela parecia ser a sua mesa.  Tudo estava muito vago em sua memória. Em cima da mesa o livro, uma rosa e um cálice com vinho... Sua face estava tranqüila. Matinha-se sorridente, como se houvesse algo engraçado. Era de cor clara, de cabelos longos. Tentou se perguntar como foi parar naquela festa, exatamente naquela mesa com um estranho livro em suas mãos..  Vinham em sua mente lembranças vagas, imagens confusas e inacreditáveis!A orquestra terminou a canção sobre aplausos.
 Bravo!Bravo!O maestro agradeceu. Bateu a sua batuta pedindo de silêncio para dizer:
 —Senhoras e senhores. Hoje vamos ter o prazer de apresentar um músico que ira nos privilegiar como uma canção inédita. Inclusive a letra será composta de improviso quando ele estiver tocando em seu violino. Os senhores não ouvirão tão cedo em nenhum recital. Vou pedir que o  convidado se dirija ao centro da estrela e toque e cante para nós.Disse o maestro Joaquim. Aplausos!Aplausos!O Mago foi para o centro do circulo colocou o violino negro no ombro e fez silêncio.  Começou a tocar sozinho e depois acompanhado da orquestra. A mendiga ficou concentrada, ouvindo atentamente a canção. Seu coração começou a bater forte  pulsando junto com o dele. Sentia no peito uma mistura de tristeza e  felicidade. Uma sensação de encontro e desencontro. Derrepente ele começou a girar, girar, girar, no sentido anti-horário.
 20.26 minutos.
 Ele parou de tocar seu violino. Todos estavam em silêncio, parados. Ele caminhou até a mesa e a olhou nos olhos dela profundamente. Ela começou a se transformar. A sua roupa tornou-se um lindo vestido longo. Ele estendeu as mãos para ela, começando a cantar escrevendo a canção.Os lampiões da praça se apagam.Silêncio! Silêncio!Disse o maestro.Permaneçam em seus lugares e acendam as velas da mesa para que eles possam continuar a dançar.Aos poucos as velas formaram um circulo de luz. Os dois ficaram no centro da estrela  da rosa dos ventos olhando um para outro. Ele colocou o manto negro em seu ombro. E começaram a dançar a sonata não completa. Ela perguntou:
 MARIA
 Quem és tu que protegido pela noite, assim vens surpreender os segredos de minha alma? Sou uma mulher velha. O que pode um jovem esperar de uma velha com tão pouco tempo para amar?Qual é o teu nome que trazes em um tempo tão distante do meu?
 O MAGO JEAN ANAEL
 Não sei de que nome hei - de servir-me para te dizer quem sou. Mulher tenho por testemunha a cruz de que o teu tempo por menor que seja será uma eternidade para mim tendo você como meu amor.
 MARIA
 Como pudestes aqui vir? Dize-me para que viestes?Os muros desse jardim são altos e difíceis de escalar e as rosas do meu jardim já não florecem como  antes.
 O MAGO JEAN ANAEL
 Transpus as muralhas do tempo com as asas do amor que são leves, porque as barreiras de pedra não podem embaraçar os vôos do amor. O que é que o amor quer que não consiga?
 MARIA
 Quem te ensinou este caminho até mim?
 O MAGO
 A Prece dos lábios do meu amor! A sua oração foi tão forte que me excitou a descobri-lo.Deu-me conselhos e eu emprestei-lhe os meus olhos.
Ele da um botão de uma rosa  vermelha para ela.
  MARIA
 Oh! Terna e benfazeja noite de lua cheia este botão de amor, prestes a desabrochar... Talvez ainda o vejamos aberto em flor esplêndida no nosso próximo reencontro.Em uma igreja talvez?
 O MAGO
 Oh! Vais me deixar assim sem me dizeres mais nada? Permite que eu me demore aqui até que tu te recordes de quem EU SOU?
 Ela olhou para ele e o  seu rosto não era mais o mesmo. Parecia vagamente um rosto conhecido. Mas ela não tinha certeza.Os sinos da Igreja de Santa Ana bateram 12 badaladas. Eles começaram a dançar no sentido horário e tudo foi voltando à forma anterior. O rosto daquela linda mulher de sorriso alegre se tornou triste. Seu vestido  foi perdendo a cor.  Ela o abraçou bem forte. Deu um beijo em sua boca e falou em seu ouvido:
  MARIA
-Tenho sete nomes. Mas pode me chamar de Maria,ainda vamos nos encontrar em outras vidas. O amor tem sempre a sua hora certa.
  Partiu desaparecendo pelo portal entrando na escuridão da noite sem memória.As luzes das velas das mesas foram se apagando desmanchando o circulo e a estrela iluminada.
 O violino do mago voltou a tocar uma canção para Maria.
 Na mesa uma vela insistia em permanecer acesa, cheia de esperança